quinta-feira, 5 de julho de 2007

Poema 78 - Sociedade de Plástico


Quero incluir-me nos excluídos
Pois estes já inclusos sociais
Plastificaram seus corações banais
Tornaram-se reais anjos caídos
 
Nessa eterna transição para o fim
Códigos de barras em vossas testas
Ainda venderam-se fazendo festa
Enchendo o corpo de vermes e cupins
 
Excluam-me, tenho olhos sem noção
Junto à minha boca sem vossa razão
Prefiro ser moído à plastificado
 
Joguem-me aos vermes da sarjeta
Prefiro, à tua morte lenta
Sociedade de plástico deidificado
 

Poema 77 - Te Quero

 
Te quiero do espanhol, te amo
Te quero do português, te gosto
Em vontades e intensidades variadas
Te quero como água no quente do verão
Te quero como calor nessa estação
Te gosto por seres vidro e diamente
Por este barro mutante
Te gosto de coração e hipófise
Te quero de púbis e costela
Sendo eu, sem preocupação ou hipótese
Te quero por gosto
Te gosto por querer
Pelos alegres dias chuvosos do teu rosto
Pelos tristes dias de sol do teu ser
E pelos meus pensativos dias cinzas
Te desejo como mulher, nua em pêlo
E como fada de fogo e zêlo
Te quero como mulher amante
Da forma como és, da forma como vieres
Dessa tua forma sem forma arfante
 

Poema 76 - Êmogo

 
Esfera metálica emocional
Rodopia com faíscas elétricas
De luzes brilhantes feéricas
No meu diafragma plural
 
É o centro de toda minha emoção
Espalhando pelo meu corpo o que sinto
Meu eu frágil e desmedido
Que oxida fácil sem aparente razão
 
Êmogo! Parte mais alegre de mim!
Êmogo! Parte mais sofrida de mim!
Meus sorrisos e lágrimas são teus
 
Minha razão é a ti submissa
Meu corpo te serve de pista
Sinto-me montanha-russa no breu
 

Poema 75 - Dor

 
A dor que nunca passa
Dor constante, vital
Me acompanha este mal
É zombeteira, faz pirraça
 
Dor, mesmo quando alegre
Até quando esquecido
Está apenas adormecido
O sentimento que me fere
 
É motor, combustível e amor
Vive-se com ela, mesmo com horror
É fruto e é semente na alma
 
Um pedaço constante de tormento
Sei que estou vivo, pois lamento
E agradeço essa dor fidalga
 

Poema 74 - Mortalha

 
Quando o ar explode em chamas
Deixando apenas cinza e fuligem
Com cheiro de vida queimada na paisagem
(Você sente perto a passagem)
Ouve troar a morte que a vida clama
 
Com o toque de dedos nervosos
Rasgando a fina película que separa
Os vivos dos mortos de forma clara
Vemos o fim com olhos receosos
 
Ei-lo! Mundo-Reflexo descarnado
Com rotos espíritos atormentados
Ao ver-nos, sucumbem a vileza
 
Alargam e atravessam a fenda
Roubam almas para na sua tentar emenda
Levam-nos para o seu mundo, final certeza

Poema 73 - Parasita Teu

 
Sim, sou completo parasita teu
Nos teus sentimentos me sacio
Teu corpo de tua alma, divorcio
Me escondo na tua parte que é breu
 
Chafurdo nessa lama emocional
Preencho o buraco em tua alma
Esperanca? Tristeza? Alegria?
Sugo tudo! Sou tão sentimental...
 
Nada sobrará quando eu terminar
Apenas uma casca vazia a desabar
E ainda estarei com fome
 
Saltarei de pessoa em pessoa
Multiplicarei-me, não importa a quem doa
Tristeza e solidão, meus nomes
 

terça-feira, 3 de julho de 2007

Poema 72 - Ocelo Luminal

 
Eu sou a dor da existência torturada
O cárcere privado de uma alma amada
A razão pueril descontente com o mundo
Vinda da existência fértil do puro, contudo
 
Sou também a incerteza do sorriso
Da pluralidade das ações humanas
Que pedem o grito solitário necessário
Quando vindos dos apertos de mãos tacanhas
 
Por isso quero ser o pequeno ocelo
Que só capta a luz, nada sabe da vida o belo
Menos ainda sente a dor do feio
 
Não sabe de onde vêm a luz
Porque a recebe de quem a produz
E por ser simples, é feliz desse jeito